LEITURA RÁPIDA

Gosto de escrever textos curtos. Crônicas sobre o cotidiano, opiniões sobre eventos banais ou mesmo extraordinários.

Certas memórias, conexões, ideias livres, críticas, coisas em bytes que necessitam ser lidas o quanto antes pois fazem parte do labirinto contemporâneo.  Alguns deles escapam a este imediatismo e podem permanecer atraentes por algum tempo.

Aqui você encontra esses textos completos.

01

 
Felizes para sempre
 

Confesso admirar -de certa forma- essas pessoas que se encontram em estado permanente de felicidade. Felizes como se não vivessem inseridas num sistema, numa sociedade, numa aldeia global, numa tentativa de pensamento coletivo, em grupos.  Seres que consideram a felicidade uma questão exclusivamente individual. O “outro” que por alguma razão está infeliz deve ser evitado, pois “contamina”.

 

São pessoas para quem a questão ambiental não é motivo de preocupação; a violência urbana não é um problema; não perdem tempo pensando nos cortiços das favelas e na expansão sufocante das grandes cidades; não acham possível  que o atendimento no hospital Sírio Libanês seja melhor que num posto de atendimento do SUS.   

 

Gente muito rica e que, além disso, por escolha própria ou movida pelas circunstâncias, desconhece a realidade de onde vive. São pessoas felizes

em seus happy hours privés, viagens internacionais mensais, férias em estações de esqui, eventos a bordo de grandes iates. Os filhos estudam na Suíça, os investimentos estão na Austrália, a residência de verão é na Toscana. São autenticamente felizes, exceto quando o espelho insiste em desfazer as plásticas e as imersões em spas da Escandinávia.

 

Minha admiração sobe alguns pontos e chega próxima à reverência quando vejo quem não possui nada disso também transbordando de felicidade.

 

Gente que passa horas do dia, engarrafada a bordo de um carro popular que exigirá 60 meses de trabalho árduo para ser pago, se não for roubado ou dissolver antes; trabalha 64 horas por semana para conseguir horas extras e pagar uma escola particular medíocre para os filhos; raspa o fundo do cofrinho pra pagar o seguro saúde que lhe atende mal e porcamente.  Gente que a cada começo de ano está endividado, mas fez

a ceia do Natal e o churrasco do Réveillon para os amigos. Se não conseguir realizar nada disso, aí sim, fica infeliz.  Ou “xatiado” como eles mesmos dizem em eterna brincadeira.

 

Minha admiração finalmente explode em espanto quando vejo quem possui quase nada também esbanjando felicidade.

 

Pessoas que perdem metade de seus dias úteis dentro de ônibus mega-lotados, indo e vindo de trabalhos exaustivos e mal remunerados; que mexe mundos e fundos pra conseguir uma vaga para os filhos naquela escola pública que -dizem- tem um bom ensino; que enfrenta meses a fio um problema de saúde até conseguir marcar uma consulta pelo SUS, divide em dez vezes no cartão um celular metido a smartphone; tenta fazer um gato da TV por assinatura do vizinho e amaldiçoa o mesmo vizinho porque ele não dá a senha do wifi. Também são autenticamente felizes a menos, é claro, que o seu time perca.

 

Certamente tenho meus momentos de felicidade: uma palavra de alguém, um sorriso, uma mão amiga,

a conquista de algum objetivo, uma tarde de sossego, um aprendizado novo, uma descoberta qualquer durante uma viagem. Mas são momentos e como tal, dão lugar a outros momentos em que a realidade comum acaba sendo mais forte que a individual até que outro motivo surja para um novo momento feliz.  Talvez eu seja apenas um potencial deprimido, mas prefiro acreditar que estou mais consciente das minhas fraquezas (assim como o que fazer para superá-las) e que estou mais imune à infelicidade que aqueles comprometidos com o êxtase a qualquer custo. 

 

Estes, que diariamente alardeiam sua incrível felicidade nas redes sociais,  acredito que na verdade possuem dentro de si um medo imenso de que alguém os julgue fracassados, incapazes de alcançar a felicidade plena. Um pânico que pode ter surgido lá na infância, entre cobranças extremas dos pais e competições nem sempre éticas entre coleguinhas de escola. A maturidade não lhes trouxe a percepção disso e demonstrar ser sempre um vitorioso, vencedor e feliz tornou-se uma atitude constante pouco importando a realidade e o próprio íntimo. Assim, ao fim de tudo isso, a eterna felicidade dessas pessoas me parece apenas uma forma camuflada de infelicidade.

 

02

Clark Kent não existiria hoje
 
Os pintores impressionistas não foram muito bem aceitos pela elite pensante francesa. Não que lhes faltasse talento ou que seus trabalhos se assemelhassem a delírios esquizofrênicos em óleo ou aquarela, nada disso.

O ambiente cultural do final do século XIX em Paris estava longe de ser conservador.  Mallarmé estremeciao teatro com Palléas et Mélisande, a Sorbonne quebrava toda a tradição admitindo uma mulher no cursode Medicina e a moda causava espanto em todas as revistas do mundo. Os impressionistas ficaram isolados porque eram reservados, tímidos, chatos.

 

Sensíveis ao extremo, capazes de inovar completamente as artes plásticas, eram por demais reflexivos, introspectivos e paranoicos. Tinham medo de serem assassinados por pintores clássicos, entre outras coisas. Reuniam-se sigilosamente em ateliers na periferia de Paris em altíssimas madrugadas e mesmo entre eles  reinava a desconfiança. Loutrec, entre todos, foi o único que assumiu uma forma diferente de solidão, expondo-se em alguns cabarés e tendo como eventuais companhias cafetinas, prostitutas, dançarinas

e bêbados. Se fosse possível Van Gogh ser convidado para o Jô Soares, ele recusaria. Se a revista Caros Amigos tivesse como propor uma entrevista a Cezàne, ele mandaria dizer que morreu. Se alguém pudesse sugerir a Degas que criasse um perfil no Facebook ele daria gargalhadas. Todos se escondiam e nenhum deles foi sucesso de crítica, mídia ou vendas. Foi preciso quase um século para se tornarem conhecidos, quando nenhum mais estava vivo o suficiente para sentir a sensação do reconhecimento e admiração mundiais.

 

Hoje, com o século XXI correndo de forma destabanada, esse tipo de cenário tornou-se extremo. Sucessos acontecem a cada vez que você recarrega uma página na internet e dificilmente alguém que atualmente opera discretamente será reconhecido no futuro.  Há uma pressa generalizada e ela engole construções complexas de raciocínio ou habilidades. A popularidade pura e simples é a meta atual, não só de artistas, criativos, atletas ou políticos como costumava ser, mas de todo e qualquer cidadão antigamente dito comum. Mil "likes" no Facebook já são uma espécie de consagração.

 

Não importa a bobagem que você faça ou diga: ela será um sucesso se você souber divulgar. Ninguém pensa em ser referencia para os próximos anos, muito menos para o próximo século.  Basta que o seja apenas para o próximo verão. Até jogadores de futebol surgem e some no noticiário numa velocidade espantosa.

Clark Kent jamais seria viável neste século. O anonimato para camuflar atos heroicos é inconcebível nessa sociedade de vitrines aceleradas em que vivemos. O conteúdo, não é mais necessário pois a popularidade conquistada é tão efêmera que não há tempo suficiente para questionar, discutir, contestar. Caso alguém demore três dias para opinar sobre uma crônica que saiu no jornal já estará comentando sobre o passado.

Hoje a simples forma leva ao sucesso, à popularidade, à glória e estes se esvanecem rapidamente para que

a fila ande, mas, contentam-se todos, pois a popularidade foi alcançada. E volta-se para o fim da fila.

 

Conteúdo, seja ele artístico, filosófico, político ou teórico, fica confinado a grupos restritos, circulando em off, irremediavelmente distante do sucesso e menos ainda da popularidade. São os novos impressionistas.

 

Andy Warhol estava errado: nem todos terão direito aqueles quinze minutos de sucesso. Os que se preocupam com conteúdo, seja escrevendo, pintando, compondo, fotografando, cantando ou até mesmo opinando,  permanecerão inéditos para sempre, pois que além dessa interminável sequencia de quinze minutos vazios de cada um, nada mais existe.